Diálogo da Saudade
- Um universitário de Letras

- 27 de jun. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de jul. de 2020
“A saudade é o preço que se paga por viver momentos inesquecíveis”
Autor desconhecido
Certo dia, dois jovens resolveram conversar entre si.
[...]
— E quem disse que saudade é ruim? — Disse o mais velho.
— Às vezes a vejo como ruim. — Respondeu então o mais novo.
E assim seguia-se o diálogo. O mais velho então disse:
— Talvez seja a forma como ela se manifesta e nós a acolhemos. A saudade revela coisa(s) maravilhosa(s) da gente.
— Como acolher a saudade com abraços e sorrisos? Balões e clima de festa? A saudade nos tira isso tudo...
— Não é bom nem justo ver e ‘experienciar’ a saudade como simplesmente fruto da perda. Não, não. Ela vai além da perda, diria que chega a tocar nos umbrais¹ do ganho.
— Mas... a saudade só se manifesta quando há perda, não? Ausência...
Com um leve sorriso e tom de serenidade, disse o mais velho:
— Olha, às vezes tenho saudades de mim, mesmo eu não tendo me perdido, não digo fisicamente, mas na essência. Não perdi o que sou, mas tem horas que mesmo sabendo disso, sinto falta por deixar seu efeito vital de lado, mesmo isso estando presente. Tenho saudades do meu pai, que já morreu, mesmo ele estando dentro de mim...
[...] Um breve silêncio tomou parte da conversa. O mais novo agora ficou apreensivo e teve curiosidade em saber sobre a morte do pai do amigo. Logo, o mais velho continuou:
— Sabe, faz bem olhar as perdas por outro ângulo, o de ganho e presença. Nem tudo ou todos que partem se vão totalmente. A saudade me faz ver e ter a experiência de sentimentos que na presença "total" eu não vivi.
[...]
— Está com saudade hoje? — Perguntou o mais novo após um instante longo de silêncio.
— Sempre. — Respondeu-lhe o mais velho em um tom de riso, dando uma leve risada.
— Nossa, sempre sente saudade?
— Sim!! Desde quando passei a entender um pouco do que é viver e de que eu vivo, a saudade passou a ser parte constituinte da minha vida. E você? Sente saudades de que/quem?
O menino mais novo então ficou pensativo. Pensou nas pessoas que partiram da sua vida, pensou nos amigos que não tinha muito contato, pensou na saudade que sentia do namorado, pensou na saudade da escola, pensou na saudade em viajar... Por fim, respondeu o mais novo ao mais velho apenas dizendo que não sente saudades como o mais velho sentia e não disse mais nada.
— Sentimentos podem ter o mesmo nome, mas o sentir cada um deles depende daqueles que são o seu alvo. A minha saudade não será igual a sua. Mesmo que se assemelhem... A saudade me vem, quase sempre, unida a um pouco de nostalgia.
[...]
— Saudades do que nunca viveu. É possível? — Indagou o mais novo ao mais velho.
— Por que não? Talvez uma "saudade futurista"?
— Se eu sinto saudade de andar de moto, é porque andei uma vez e queria andar de novo, mas impossibilitado eu acabado tendo saudade... O mesmo vale para outras saudades... Mas, se eu nunca experimentei, não sei como é, como vou sentir saudades? Não sentiria saudades de um amor, se não o tivesse vivido, certo? — Disse o mais novo.
Em um suspiro o mais velho então lhe contou a seguinte história:
— Um jovem tinha boa parte da vida futura dele muito bem programada e organizada na cabeça. Da mesma forma, antes dele entrar no seminário, a vida dele já estava organizada, mas de uma forma muito diferente da que está sendo agora. Ele tinha o desejo em ser um professor, um bom professor, especificamente na área de humanas, filosofia e sociologia, esse era o plano, até ter o desejo de ser padre. A vocação presbiteral veio como um banho de água fria para esse projeto fogoso dele, mas lhe permitiu fazer outro, que está bem desenhado... Por mais que ele esteja feliz e veja possibilidade viva de realização pessoal nesse "novo" projeto, o do seminário, ele têm saudade do que seria o antigo, ou seja, saudades do que seria sendo professor, mesmo não chegando a sê-lo... Lembra da cantada do Neymar? "Saudade do que a gente ainda não viveu."
Os dois começaram a rir e em seguida afirmou o mais velho:
— Pois é, meio isso. Quando planejamos algo, geralmente nos vemos realizando tudo. Saudades do resultado "vivido" desse pensamento... Confesso que soa um pouco abstrato. Mas, tenho saudade da concretização de um sonho não vivido fisicamente, mas que experimentei sensivelmente no meu mundo.
[...]
— Diga-me jovenzinho, ver coisa boa na saudade?
— Ainda tentando... não parei para refletir e realmente considerar. Não sei te dar essa resposta com toda minha verdade. Acho que fico meio a meio... vai depender muito da situação também. Se sinto falta e queria ter algo que não tenho, a saudade é para mim uma coisa ruim, visto que, fico chateado, fico mal, para baixo, triste... Mas também há um outro lado, o qual ainda estou descobrindo...
— A saudade me leva a ver como vivi bem certos momentos. E, ao mesmo tempo, me dá alegria de ter vivido tantas momentos bons, que passaram, mas ficaram gravados.
[...]
— Sentimos saudades mais quando estamos carentes?
— Creio que a carência é um momento de fragilidade e de exposição de nossa mais íntima verdade. Ela meio que rasga nossa couraça egocêntrica e autossuficiente e mostra que precisamos de gente.
[...]
— Mas também um perigo, a carência.
Disse o mais novo. E sorrindo, concluiu o mais velho:
— Mas, o que não pode ser um perigo quando não é bem vivido e administrado?
Texto dedicado a Marcio Antonio da Silva, o "jovem mais" velho do diálogo.
¹ Umbrais é o plural de umbral. O mesmo que: entradas, portas, áditos, limiares, ombreiras. Lugar através do qual se consegue entrar, ir para o interior de; porta, entrada, limiar.
(Dicionário online de Português - <https://www.dicio.com.br/>)



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